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Banca aumenta taxas para compensar juros baixos

Com as taxas de juros a manterem-se em valores mínimos e sem poderem subir os spreads sob pena de afugentar os clientes, os bancos estão a aumentar outras comissões cobradas por associação ao crédito para habitação, como sejam os encargos de avaliação, de dossier, de formalização ou de processamento da prestação. Esta é a conclusão de um estudo levado a cabo pelo Dinheiro Vivo com a ajuda da plataforma ComparaJá.

Segundo a análise efetuada por esta plataforma online, os spreads mais baixos do mercado são, atualmente, praticados pelo Bankinter e pelo Santander. Com todos os serviços contratados, ambas as instituições oferecem uma taxa de 1,25%, contudo, e segundo o Dinheiro Vivo, uma análise mais aprofundada acaba por revelar que a opção mais vantajosa é a oferecida pelo Banco CTT, que tem uma TAER de 1,93%.

“A TAER é a taxa anual efetiva revista, ou seja, inclui já todos os custos que estão associados àquela contratação, como por exemplo custos de manutenção de conta ou outros encargos exigidos. Esta taxa inclui tudo o que está implícito na contratação do crédito e é o valor que deve servir de referência,” explica a associação de defesa do consumidor DECO.

O spread, recorde-se, apenas indica a margem de juro que cada banco cobra sobre o valor emprestado – o lucro que a instituição obtém com cada empréstimo – e é a percentagem publicitada para cativar novos clientes.

“Os bancos têm vindo a baixar os spreads para acompanhar a pressão do mercado. Já todos oferecem abaixo de 2% e a grande maioria vai até está abaixo de 1,5%. Obviamente que isso reduz a rentabilidade do produto em si. E as instituições têm de encontrar essa rentabilidade noutros produtos e meios. O crédito habitação é um produto âncora, de relação entre o banco e o cliente. Que tem um crédito habitação geralmente terá a conta ordenado, muito provavelmente o cartão de crédito e outros produtos associados. As comissões no crédito e nos outros serviços servem para manter as margens de lucro”, explicou Sérgio Pereira, CEO da ComparaJá, ao Dinheiro Vivo.

A prática não é negada pelos próprios bancos. Ainda no passado mês de maio, o presidente da Associação Portuguesa de Bancos, Fernando Faria de Oliveira, defendeu a cobrança de comissões como “algo que é legítimo e normal em qualquer atividade económica,” acrescentando que “as comissões líquidas do setor bancário caíram 12,6% de 2015 para 2016, passando de 3,1 mil milhões de euros para 2,7 mil milhões de euros”.

Na simulação feita pela ComparaJá, que analisa a oferta de produtos de crédito à habitação em 2016 e em 2017, o Dinheiro Vivo afirma que se pode constatar que a maioria dos bancos aumentou as suas comissões iniciais nos créditos à habitação do ano passado para o ano em curso.

O Novo Banco é o que mais cobra, começando por pedir 320 euros só para a abertura de processo aos quais se somam 310 euros de avaliação e 150 euros de formalização, perfazendo um total de 780 euros.

O que mais subiu foi o BIC, que no ano passado cobrava 475 euros de comissões iniciais e este ano está a pedido um total de 630 euros, representando uma subida de 33%. Nenhum dos bancos analisados baixou os preços.

“Estamos a falar de números que são altos e que muitas vezes implicam um financiamento próprio. Um pessoa que ia pedir 100 mil euros para comprar uma casa, se calhar tem de pedir 101 mil para fazer face às comissões, sendo que esse valor fica depois sujeito às taxas de juro do próprio empréstimo”, refere Sérgio Pereira.

Despesas ao longo da vida do empréstimo

Às despesas iniciais juntam-se outros encargos cobrados durante o período do empréstimo e aqui, segundo a ComparaJá, existem grandes diferenças entre as diversas instituições financeiras a operarem em Portugal.

O Banco CTT, o Novo Banco, o Best e o Bankinter, para além dos custos iniciais, cobram uma taxa mensal pelo processamento da prestação. Já o Montepio tem uma comissão de gestão e outra de manutenção de conta. Por sua vez, o Crédito Agrícola tem uma taxa de distrate de hipoteca.

“Apesar de os bancos estarem legalmente obrigados a indicar todas as comissões que cobram, o facto de estes produtos serem tão diferentes de instituição para instituição faz com que seja difícil aos consumidores conseguirem comparar os créditos de forma exata”, destaca o responsável, garantindo que a forma mais segura e fácil de fazer esta comparação é através da TAER.

Comissões geram discórdia

Ainda que não haja contestação à legitimidade dos bancos para cobrarem comissões, há um encargo que provoca polémica. Desde 2011 que a Deco se bate pelo fim da comissão de avaliação, considerando que esta é um “negócio da China”.

“Os bancos cobram 232 euros, em média, mas só pagam às empresas avaliadoras 112 euros. Estamos a falar de uma margem de mais de 100%”, indica a associação na sua página de Internet.

Lembrando que a avaliação do imóvel é obrigatória para a concessão do empréstimo, a Deco é contra a imposição de um avaliador pelo banco, argumentando que uma avaliação não é garantia de concessão de crédito e se o consumidor tiver de recorrer a outro banco, terá que passar pelo processo novamente e voltar a pagar nova avaliação.

“A Deco exige que o consumidor possa escolher o avaliador e usar uma única avaliação em várias instituições, à semelhança do que se passa na vizinha Espanha”, indica a associação, fazendo saber que em breve fará chegar esta reivindicação à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), ao Banco de Portugal, ao Ministério das Finanças e aos grupos parlamentares.

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