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Rendas altas afastam pessoas dos centros

lisboa

No momento de arrendar casa, os portugueses procuram rendas entre os 260 e os 600 euros, longe da média da oferta do mercado nacional, que atinge valores superiores a mil euros e que sobe ainda mais nas consideradas zonas nobres das cidades. Uma situação que, segundo Luís Lima, presidente da APEMIP – Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal, está a afastar as pessoas dos centros.

De acordo com a associação, o valor médio da oferta em Lisboa ronda os 1104 euros e aumenta em zonas como o Parque das Nações ou a Baixa, quando a procura varia entre 397 e 600 euros. No Porto, a média da oferta é de 1056 euros, com rendas mais altas na Avenida dos Aliados, Mouzinho da Silveira e Clérigos, para uma procura que oscila entre 260 e 461 euros.

A associação aponta como exemplo um apartamento T2 em Lisboa que tinha, no passado, uma renda mensal de 700 euros e pelo qual os senhorios pede agora 1200 ou 1300 euros.

Luís Lima, citado pelo jornal i, não tem dúvidas de que quem sai mais penalizado por este aumento de preço são os jovens. “Se considerarmos o valor médio de oferta em Lisboa ou no Porto, chegamos rapidamente à conclusão de que a maior parte dos jovens portugueses não tem, de todo, condições para suportar rendas daquela dimensão, sendo habitual juntarem-se em apartamentos, arrendando quartos. No entanto, esta é uma situação que, por vezes, sai da esfera dos jovens para se estender a pessoas adultas, e por vezes, em situações mais complexas, até a famílias”, alerta.

A situação é reconhecida pelas mediadoras imobiliárias. De acordo com o presidente da Century 21, Ricardo Sousa, os preços dos imóveis praticados nas grandes cidades – tanto no arrendamento como na compra – estão a empurrar os jovens e as famílias para a periferia.

Este responsável aponta como exemplo o valor médio dos imóveis em venda na área metropolitana de Lisboa, que está acima dos 250 mil euros, enquanto o valor médio da procura a que estão a ser feitas transações ronda os 148 mil euros. “Está aqui um gap enorme, e isto está a fazer com que se assista a uma deslocação das famílias para os mercados periféricos da cidade, o que é visível em todo o território nacional. Se o poder de compra não aumentou, até diminuiu, a sua capacidade de compra ou de arrendamento mantém-se”, diz.

“Arrendar uma casa por 500 euros na cidade de Lisboa não passa de um sonho, não existe essa oferta. O mesmo acontece no Porto. Precisamos de ir para Gaia, Maia, Odivelas, Loures, etc.”, sustenta Ricardo Sousa.

A tendência é confirmada por Miguel Poisson, diretor-geral da ERA Portugal, também citado pelo jornal i. O responsável explica que a procura começou a aumentar em  2014, por um lado devido à dificuldade em conseguir crédito à habitação e, por outro lado, devido à oferta turística proporcionada pelo fenómeno do alojamento local.

A falta de oferta e os valores muito elevados ganham importância no mercado de arrendamento, uma vez que tanto a construção de casas novas como a reabilitação destinam-se, essencialmente, ao segmento de luxo e ao turismo, pois muitos dos imóveis e edifícios que estavam destinados à utilização residencial têm vindo a ser convertidos em alojamento local ou edifícios turísticos, como hotéis e hostels.

“A oferta de arrendamento acaba por diminuir substancialmente, o que faz com que os imóveis que ainda tenham como destino o arrendamento tradicional apresentem valores mais altos e inflacionados”, sublinha Ricardo Sousa.

A APEMIP tem vindo a observar o mercado de arrendamento e chegou a apresentar ao anterior governo estudos a comprovarem a discrepância entre os valores de oferta e de procura e distribuição do stock disponível para arrendamento no mercado, uma vez que há zonas em que a procura é superior à oferta, e outras, como Faro, onde a oferta é superior à procura – 11% para uma procura na ordem dos 2,1%.

Para Luís Lima, o valor atual das rendas é um dos principais entraves à dinamização do arrendamento, uma vez que supera o que se pagaria pela prestação de um crédito à habitação.

O presidente da APEMIP defende que para que os valores das rendas se possam adequar à procura não basta os senhorios baixarem os preços, mas que também é necessário rever os impostos.

“A fiscalidade sobre o imobiliário é brutal. Neste panorama, no arrendamento, os senhorios são taxados pelo rendimento e pela posse. Os impostos aplicados sobre quem coloca os seus imóveis no mercado, bem como a falta de mecanismos que garantam a segurança de que os inquilinos cumprem as suas obrigações, fazem com que os preços sejam mais elevados do que o suportável pelas famílias”, frisa Luís Lima.

 

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